Como todos os dias chego mais cedo. São 17:45 e já estou no Hospital. Hoje é Sábado, não tem trânsito. Somente a chuva que cai a vários dias em São Paulo, atrapalhou meu caminho. Está frio, um frio outonal que deixa em mim a esperança de que o plantão seja tranqüilo.
Converso com uma senhora, auxiliar de enfermagem, cujo nome eu não sei. Engraçado você trabalhar com pessoas que sequer sabe o nome, não trabalhamos no mesmo setor. Aliás, nem sei qual o setor que ela trabalha. O assunto: filhos. Ela conta orgulhosamente dos progressos de sua filha adotiva, vejo um brilho no olhar. Aquele brilho de quem se sacrificou a vida toda e vê no sucesso dos filhos o seu sucesso. A invejo.
Vou para o PS, ao passar a famosa porta vai e vem, tenho uma visão alentadora. Várias macas vazias. Procuro pelos enfermeiros, o Jq foi levar um paciente à radiologia, a Ll está de folga, a Ld e o Rd estão no isolamento puncionando a veia de um paciente. Estranho, todos “com a mão na massa”. Logo veio a resposta, falta de auxiliares, apenas um no corredor. Conversamos um pouco e vou fazer a minha escala. Inacreditável, teremos cinco no corredor, CINCO. Brinco com o Rd; “quando a esmola é demais o Santo desconfia, vai bater um ônibus, cair um avião ou coisa assim”. “Que nada, responde, Dr frio e Dra chuva estão de plantão”. Doutores frio e chuva são os nosso favoritos, pois quando tem frio e chuva o PS costuma ficar tranqüilo. Recebo o plantão, está uma zona: Vários pacientes sem admissão, medicações por fazer... Mas considerando a situação resolvo não questionar. Boa noite, bom descanso.
Minha equipe começa a chegar: hoje estaremos em três enfermeiros, o Ln, Rs, uma enfermeira que foi minha auxiliar no outro plantão e acaba de ser promovida e eu. Chegam os auxiliares, a Ml e Al voltaram de férias. Gosto muito das duas. A equipe está mais que completa.
Primeiro resgate da noite: SAMU traz um homem, 50 anos bebeu demais, segundo a Auxiliar do SAMU, está na cadeira de rodas. “Não consegui ouvir a pressão dela” diz a auxiliar. “Se você não ouviu a pressão seria um excelente motivo para colocá-lo em uma maca, e não trazê-lo em cadeira de rodas”, respondi com minha conhecida franqueza. Pego o aparelho e verifico a PA: 8 x 3, continuo examinando, hiperemia em todo corpo, lábios e pálpebras inchados. “O senhor bebeu muito?” Pergunto. “Não só um pouco de vinho” “Comeu algo diferente?” “Uma marmitex com macarronada”. Volto-me para a auxiliar de enfermagem e disparo “ De vez em quando é bom perguntar pro paciente o que ele está sentido, colher história, este senhor está com uma reação alérgica” “Mas está cheirando a álcool”, ela retruca. Chamo a Ns na emergência, “Coloque-o em uma maca, puncione o acesso venoso e deixe o flebo e o fernegan preparados” “Certo”, ela responde.
Chamo a médica de plantão, Dn, clínica, jovem e gente boa. Confirma a reação anafilática, a medicação começa.
Olho para a Ns, não estou contente. O acesso ainda não foi estabelecido. Gosto das coisas rápido e, ás vezes, não acompanho o tempo das pessoas. Ela punciona a veia e diz. “Você me pediu duas coisa, para por na cama e puncionar a veia. Você viu o tamanho dele?” Fico calado. Ela tem razão.
O Paciente parece complicar, agora está com hipotermia (35ºC) soro aquecido. A auxiliar do SAMU ainda tenta se justificar e ouve um “aguarde lá fora” sonoro da Dn e meu. Algum tempo depois ele está estável. Sonolento por conta do fernegan.
No corredor um rapaz grita alucinadamente. Ele está com a perna quebrada. Na verdade fraturou a perna gravemente há alguns dias e hoje foi andar de moto ainda com os pinos fixadores externos, resultado: caiu e o fixador fraturou o osso em outra parte. Terá que fazer nova cirurgia. Ele grita alucinadamente. Procuro o ortopedista que não que mudar a prescrição de analgesia, discutimos e depois de algumas palavras nada amigáveis ele retorna ao PS e muda a prescrição. Eles não resistem à persuasão da caneta. Você escreve, eles lêem e mudam de idéia. Medicamos o paciente, mas não resolve, ele continua a gritar. Nova medicação e reposicionamos sua perna e ele tem um alívio. Converso com ele: Esta trabalhando de moto boy, pois tem filhos e está recebendo R$700,00 por mês do INSS. Hoje ao chegar em casa encontrou a esposa nua, na cama com o melhor amigo, saiu nervoso e bateu a moto. Mas tarde ele voltará a gritar, será medicado até que durma ou pelo feito da medicação ou por exaustão. Sua perna está em frangalhos, ele bateu a perna contra a grade da maca o tempo todo.
Emergência, uma senhora de 75 anos, inconsciente. O Ln vai verificar a pressão e eu sugiro: “Faça o dextro primeiro” feito o dextro: 27. Acesso venoso, soro glicosado e glicose na veia. A idosa acorda, começa a vomitar. Verificamos a pressão: 22x14, medicada a Dn ainda tenta orientar a família a procurar o posto para ajuste da dose dos medicamentos, mas eles acham o PS mais fácil.
A Rd me chama na sutura, uma senhora 80 anos. Precisa de uma sonda nasogástrica. Passo a sonda. Há tempos não via tantas fezes saindo pelo lado contrario. Chama o cirurgião e lá vai ela para o centro cirúrgico e depois para a UTI. O filho está inconformado, ela recebeu alta ontem, (Ainda vou ouvir falar neste caso).
A Edn, secretaria de ala, me chama. Preciso ir até a internação: Surpresa. Estão me convidando para jantar com eles. Delícia de jantar. As meninas da internação e registro prepararam e trouxeram. Sinto-me querido. Janto rapidamente e volto para o PS.
O telefone toca. Uma médica do serviço de nefrologia quer transferir um paciente para nós. Chamo o médico encarregado do plantão que pede para que ela ligue mais tarde. Contrariado, dou o recado. Mais tarde a médica liga novamente. Chamo o chefe do plantão que responde; “Eu não vou atender agora, fala pra ligar mais tarde”. Aí já é demais: “Escuta aqui, retruco, vai você ao telefone e diga para tua colega que você não quer atender. Tenho um pronto socorro cheio para cuidar e não faz parte de minhas funções secretariar você ou qualquer outro. Vou ao telefone e dizer à ela para aguardar que você vai atender. Se não for a linha cai e você se vira” Dito e feito. Peguei o telefone; “Dra, o Dr ML, vem atendê-la”. Mal coloquei o fone no balcão e ele atendeu. Fala sério...
Outro SAMU, homem 45 anos, caiu de joelhos. Acho que fraturou a rótula. O Ortopedista avalia pede raios-X e tenho certeza que ele fraturou a rótula. Mando-o ao gesso para fazer a tala e descobrimos que ele tem uma osteomielite no fêmur do mesmo lado. “Que sorte”.
Outro SAMU, homem, 40 anos, bebeu, brigou, caiu e quebrou o nariz. A esposa o deixa no PS e avisa: “Você quebrou o nariz, vai ficar internado. Eu vou ver o desfile”, e foi. Ele vai dar trabalho a noite toda. Precisamos amarrá-lo.
As internações não param. Já não temos mais macas.
O Ed, volta da janta com uma paciente que ele encontrou com soro e tudo, na avenida em frente ao hospital. Não pude deixar de rir. A paciente, passeando com o braço levantado para o soro pingar e indo “pra casa”. “Você trouxe de volta”, pergunto. “Ela não tinha suporte de soro”, responde o cara de pau.
A N está de folga. Mas com a volta da Ml a qualidade do café está garantida. Tomamos café rápido. Conversamos pouco e rimos um bom tanto. Converso com a P sobre o caso do dinheiro. Ela decidiu pagar para ter paz. Esta menina parece comigo. Cada dia sinto mais orgulho dela. Mas não concordo. Acho que ela foi roubada.
Mais um SAMU, menina 17 anos. Acidente de carro. Estava no banco de trás, sem cinto de segurança, fraturou a clavícula e tem hematomas. Não acredito que ela é casada. “Sou, há dois anos, casada mesmo.” Onde vamos parar? Penso, enquanto preparo seus papais para internação.
Madrugada, a Ab sobe com uma paciente da clínica. Está hipotensa. Olho o prontuário: acabou de receber dipirona. O meu balançar de cabeça diz tudo. Duas horas depois a paciente está de volta à clínica, recebeu soro fisiológico.
Os doutores frio e chuva não conseguiram afastar os pacientes do PS hoje.
A hora passa rápido, estamos chegando ao fim de um plantão corrido, trabalhoso, mas sem grandes problemas.
O Ln me chama;
- Passa o plantão pra mim?
- Com certeza, pode deixar.
A Rs intervém, “Podem deixar, eu passo.”
- Não você ainda é novinha pra ficar só, brinco. Eu passo.
-Você está aí no próximo?
-Não, venho para reunião, mas estou de folga, respondo.
-Então até segunda.
-Até segunda.
Gostei!! de folga? de novo? da essa folga pra mim vai!!!!!rsrsrs
ResponderExcluirImagino a cena, a paciente foge e continua com o soro pmv, esperta ela, acho que pensou que seria uma boa fantasia! Cômico.
ResponderExcluirSecretária de médico? Jamais!!! Tenho mais o que fazer!
Nossa...eu me pareço com vc?? rsrs q orgulho rsrs
ResponderExcluirpena estar d folga hj...faze u q neh
boa folga entao
ps. o meu café é bom ta...vc q nao experimentou ainda....rsrs
bjuss