sábado, 12 de fevereiro de 2011

Sexto dia: Plantão desfalcado

PRONTO SOCORRO

Seis da tarde, chego ao hospital. Estou adiantado, não há nada de especial a fazer, mas resolvi correr da chuva e chegar antes dela, consegui.

Aproveito que estou adiantado e passo na sala da Rg para um café. estava adivinhando. Ela me adianta que teremos três faltas ao plantão, confirmadas. Sem contar o Rd que não tem comparecido há dias. Aliás o Rd foi o assunto inicial de nossa conversa, já que eu o havia defendido ha alguns dias atrás e desde então ele não apareceu no plantão. Sou obrigado a concordar com a chefe e ficar quieto. (Louco eu sou, mas burro não!). Bem pela previsão da Rg faltarão Ns, Ad e Lc. E pela minha previsão o Rd, conversou comigo no Facebook hoje, está desanimado. A Rg providenciou auxiliares de outros plantões para fazer hora-extra, bom começo...

Chego ao Pronto Socorro, pego a escala e começa minha dor de cabeça, onde encaixar todo mundo de forma a não sobrecarregar uns ou outros? Mexe, muda risca. Este não pode fazer isto, aquela não faz aquilo, outro dá muito problema aqui... A vontade é ter uma diarréia e sair correndo pra casa, munido de um atestado para o dia de hoje. Depois de uns três ou quatro rascunhos a escala está pronta. A Jn, auxiliar, me pede para não ficar na medicação. Resolvo atender, hoje é melhor tentar agradar, mais uma mexida na escala e pronto, fixo-a no quadro e vamos começar a brincadeira...

Surpresa boa.; A Ns veio trabalhar, mesmo com o ombro doendo. Sinto pena dela, sei o que é dor no ombro. Aliás eu sei o que é dor em qualquer articulação. Pergunto onde ela quer ficar “Prefiro o corredor”, parece contraditório. Mas no corredor trabalhamos muito e sempre tem alguém para ajudar com o “pesado”. Sinto orgulho dela. Com a Ns o plantão provavelmente será mais tranquilo. Quatro no corredor é um luxo.

Chega o Rn, e os auxiliares. A Db já chega pedindo para que eu esqueça o nome dela hoje (nem sabia que eu falava tanto o seu nome), ela está na emergência com a P, que também entra na brincadeira do não fale meu nome. Não adiantou foi o primeiro nome da noite "P, prepara um canudinho para mim". Acreditem ou não nós ainda cortamos equipos de soro para fazer canudinhos a fim de oferecer líquidos aos pacientes. Sairia muito mais barato ter os canudinhos, mas não temos então isto é o melhor que podemos fazer

O plantão começa com uma equipe do SAMU apresentando um paciente que convulsionou em casa e estava agressivo. "Convulsionou ou está agressivo"? Pergunto. "Na verdade está agressivo, não vi ele convulsionando e nem em estado pós comicial", responde a auxiliar de enfermagem do SAMU. Não temos psiquiatra no plantão. Isto significa que todos os casos de psiquiatria serão atendidos no PS. Mal sinal. A TT, clínica das mais comprometidas, avalia e prescreves as medicações controladas para o paciente que não deu trabalho algum até resolver ir embora acompanhado por familiares na hora da visita. Não vi ninguém tirando o “jelco 16” do braço dele, então ele foi embora com acesso venoso, e calibroso. A evasão de pacientes é comum. Nosso sistema de segurança é falho ou melhor, não existe. Num momento o paciente está na maca, no outro sumiu. Quando sai com parentes ainda é um alívio, o pior é quando os parentes vem procurá-los e… cadê?

Outro SAMU, outro paciente da psiquiatria, alcoolizado, meio afeminado. Enquanto puncionava sua veia ouvi gracinhas como o fato da minha mão ser leve, de eu ser delicado, bonito etc, aff… e está só começando a noite. Bem a prometazina, que o JN prescreveu, fez efeito rapidinho. Vai dormir por um bom tempo. Medico e deixo com as faixas no punho, prontas para amarrar, se necessário.

No corredor ficaram a Ns, Ed com seu sarcasmo divertido e dois auxiliares do dia Bt e Cl que por sinal deram conta do recado sem problemas.

A noite inicia normalmente, plantão tranquilo sem grandes acontecimentos. A Ab, supervisora, chega para acabar com minha paz, propõe mudanças na escala devido a "limitações" de uma auxiliar (que não vou dizer que é a Cd). Reclamo, chamo a Rg, que concorda comigo. Confesso que reclamo mais pelo orgulho que pela necessidade mas acabo cedendo e prol da paz no plantão, afinal tenho a noite toda pela frente. O Ln, chega. Legal, ele toca a classificação de risco.

O controlador de acesso entra com um paciente que caiu da moto há 24 horas e não procurou assistência médica, está vomitando. Durante a avaliação observo que seus ferimentos estão infectados e ele com febre. Colho história, usuário de cocaína, caiu da moto ontem... história mal contada aí tem coisa. Após passar a dor ele simplesmente sumiu levando consigo o prontuário e seus exames. Ninguém o viu sair… Acho que ele estava com medo de alguma coisa, problemas com a polícia, talvez.

Dez da noite, encontro pelo corredor um travesti loiro, irritado e  com um acompanhante extremamente agressivo carregando uma caixa de isopor. Precisa tomar a imunoglobulina, que está na caixa, e "ninguém faz nada". Encaminho para a soroterapia, ele(a) não gosta, quer ficar em uma maca. Mantenho a conduta e contrariada ela vai para a soroterapia. Vou me arrepender disto. Ligo para a "soro" e oriento  Ml e El, auxiliares, como proceder. “Entendi” é a resposta do outro lado. “Por favor, não quero mais dores de cabeça com este paciente, me ajudem”, reforço. “Tudo bem”

Enquanto isto as meninas, Db e P, pediram nosso jantar: esfihas do Habib’s, a fome aperta. Vocês não tem noção de como a comida aqui é ruim, e se demorar para ir ao refeitório vai ficar pior, ressecada fria e remexida. Alguém me chama pra comer e eu vou. Lembra-se que iria me arrepender de algo? Primeira dentada na esfiha e alguém me chama: problema na soro, a auxiliar está com dificuldades para preparar a medicação, vou até lá. Oriento, ou melhor, preparo, converso com "a" paciente e volto pro meu jantar. Todo mundo já comeu... detesto comer sozinho no trabalho. Chamo a Ns para me acompanhar. Nova dentada na esfiha e... "A soro está chamando", isto se repetiria por mais três vezes. Minha esfihas? Comi, frias, mas comi.

Sinto dores na perna direita. Chamo a P e peço pra me medicar. “Tudo bem vou ver se tem tilatil aqui”. O plantão vai correndo… Chega LC, clinica, nova no plantão. Parece legal. Nos apresentamos, ela acha que está cheio. “Cheio? Temos 09 macas vazias e ninguém nas cadeiras, está uma beleza”, acho que ela não acreditou em mim. Ainda terá muitas sextas para descobrir que eu falei a verdade.

Onze e meia, alguém me avisa que chegou um baleado. Jovem, 19 anos, vítima de "bala perdida". Ferimento na coxa direita. Tiramos as roupas, há o risco de hemorragia. Verifica pulso... a posição da perna indica que há uma fratura no fêmur... o ortopedista discorda... Aproveito para explicar para Db e P como identificar uma fratura de fêmur e o conceito de fratura exposta. Colhendo a história: usuário de cocaína, foi atingido por um projetil de pistola. "Se foi bala perdida, como você sabe que foi de pistola?" Perguntei. A resposta veio com um sorriso irônico.  Decido não conversar muito. Seus acompanhantes(uns cinco) estão mais para Beira Mar, que pra Luciano Huck”. Após o raio x confirmar a fratura de fêmur (exposta) levamos o rapaz ao centro cirúrgico... vai passar umas semanas sem andar... Procuro alguém para dar informações… sumiram todos.

O corredor está cheio de pacientes da ortopedia, isto é bom por que são poucas intercorrências com este tipo de paciente, mas por outro lado, como falam...

Meia noite e meia, chega uma senhora "desmaiada" na cadeira de rodas, verifico sinais vitais, tudo normal. Ela abre o olho percebe o ambiente e volta a fechar... Encaminho para o consultório... ela acorda antes de chegar lá.

Bate papo no postinho... assuntos diversos, relacionamentos amorosos, profissionais, família, falamos de tudo, rimos de tudo, até de nossos problemas, observo a dinâmica e penso. “O Rd fará falta, ele é o piadista oficial deste plantão”.

Duas horas, me chamam na sutura, queda de moto. Nada demais além de um rosto todo arranhado. “Por que não usam capacete?”. Raio x, curativos, casa. Vai andar de moto novamente.

Mas alguns atendimentos e estamos de novo no postinho, são quatro da manhã. Estou adiantando a postagem do blog,  Rn e Ln, seguram as pontas no corredor, tudo sossegado. De repente o DN, ortopedista com espírito de ER (plantão médico) começa a fazer perguntas sobre seu paciente e brincar com a equipe. Olho para Mc, auxiliar, bonita, simpática e muito assediada e disparo: “Não é por minha causa que ele não sai daqui (falei outras coisa também que não vou escrever aqui)”. Ela ri, todos concordam e eu complemento, “Mas não o culpo”. “Ah bom! Obrigada” é a resposta da simpática cara de pau.

Passo na Emergência, a P me mostra um resultado de gasometria. “Que bom,, ela está aprendendo a interpretar”, penso. Não falo nada. Mas fico orgulhoso.

Plantão tranquilo, estávamos precisando de um desses.

Fim de plantão, Rn e Ln se preparam para passar. Foi um dia diferente, sem maiores complicações. O Rn está de folga no próximo "De novo?" Provoco. "Não quer que eu tire folga?" responde sorrindo.

"Plantão tranquilo, finalmente"

"Pelo menos um no mês" diz Rn

Bom pra mim deu.

Até amanhã

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5 comentários:

  1. Como vc chama isto de calmo. Eu achava que trabalhava demais até começar a ler o seu blog. Colega vc ´muito inteligente. Escreve muito bem, se todos enfermeiros tivessem esta cultura...

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  2. Gostei muito do blog. Vou voltar
    Cirlene

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  3. Sentimento de evasão é igual ao de queda, é horrivel quando você tem que ligar para a familia e informar que aquele parente que estava internado por x motivo e tambem tem esquizofrenia "fugiu" do hospital! É a realidade do serviço publico...

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  4. Uma realidade ingrata. Mas nos dois casos de hoje não havia como segurar no hospital... paciência.

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  5. Muito bom estou viciada no blog Cacau

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