Chego ao hospital depois de um banho de chuva torrencial pelo caminho. Estou molhado e preciso de um banho quente para me refazer. Vou direto para o vestiário. Tomo meu banho e coloco minha “roupa de guerra” (uniforme privativo). Pronto, vamos à luta.
Encontro duas auxiliares do diurno, fazendo a “inalação” da tarde. Brinco com a falta de juízo delas, uma vez que sabem dos malefícios do cigarro. Elas me informam que nosso Pronto Socorro está calmo. “Nem parece verdade”, diz uma delas. Subo para registrar meu cartão e tenho uma surpresa: ele não está na chapeira. Após uma breve procura decido não me estressar e peço pra a Va, admistrativa da diretoria, fazer um papel justificando e vou pra “minha casa”, o PS.
Passo pela porta vai-e-vem e pergunto à Ld, enfermeira do diurno, “Onde você escondeu os pacientes?”. “Graças a Deus, está tranqüilo, hoje” ela responde. Vou fazer a escala e nova surpresa: a escala do mês não está na pasta. Penso que o An, deve ter tirado para refazer. Estamos com muitas faltas e atestados, então a escala fica desfalcada. Decido esperar ele chegar. Recebo o plantão. Dois na emergência, um entubado, teve uma parada cardiorrespiratória e foi reanimado. Está “estranho”, pressão baixa... Os demais estão como sempre. Vários ortopédicos aguardando cirurgia e outro tanto “aguardando” internação na clínica. Chega o An, parceiro de hoje, confirmo a suspeita da escala. Escala feito. Somente dois no corredor. Se ficar calmo assim, tudo bem.
Começamos. O An cuidando das transferências e eu ajudando a N no corredor, enquanto o Vn não chega (a partir de hoje ele entra às oito da noite). Chega o Rn, estamos em três enfermeiros.
Uma paciente, no corredor. Febre a esclarecer (odeio este diagnóstico), durante a avaliação observo os olhos, vermelhos, ardentes e com “um quilo” de secreção de cada lado. Conjuntivite, provavelmente bacteriana e febre esclarecida. “Economizaríamos tanto se olhássemos para os pacientes”, comento com o NA, enquanto ele prescreve o colírio antibiótico.
A porta está lotada. Muitos casos “bobos”, medicação e alta. Há um grupo de estagiários na medicação e isto atrasa o atendimento. A fila começa a ficar impaciente, um senhor quer falar com o “responsável”. “Estou esperando há duas horas e nada!”. Pego sua ficha, confiro o horário. Feita as 18:00h. Ainda que ele fosse atendido pelo médico imediatamente após fazer a ficha, o que não ocorreu, ainda era 19:30. “Senhor, temos que ter um pouco de paciência, logo será atendido”. “É um absurdo, eu pago imposto. Vocês estão aqui pra trabalhar...” Não sei se ele viu quando saí, mas estava dobrando o corredor e ainda ouvia seus gritos.
Primeiro SAMU da noite, um rapaz alcoolizado resolveu testar a resistência da calçada com a cabeça. Sutura, raios-X, observação. Vai falar até dormir e quando acordou ainda me pergunta: “Como vim parar aqui?”.
Outro SAMU, paciente psiquiátrico, saiu com alta “a pedido” de um hospital da região. Está com pressão alta. Medicado, a pressão abaixa e encaminho para a psiquiatria. Lá é medicado e o psiquiatra constata que ele precisa de neurocirurgião. Onde tem? No hospital de onde a família o tirou, e só lá.
O An me chama. Um paciente da porta tem os resultados de exames alterados. Tudo indica ser infarto. Procuramos o paciente, nada. O An liga para o celular. Ele ainda está perto. Pedimos que retornasse, o colocamos na emergência. Oxigênio, eletro (que não indica infarto), decidimos mantê-lo ali. Chama o médico de plantão, WD. Conversamos e colhemos novas amostras de sangue, medicamos. O Infarto seria confirmado pela elevação das enzimas cardíacas. Ganhamos o plantão. Este terá uma chance maior, que se estivesse em casa.
Uma senhora com o punho fraturado é internada. Vai aguardar cirurgia, caiu devido as brincadeiras de seu cãozinho de quatro meses, um boxer. Durante o atendimento falamos sobre o amor dos cães e me exibo com minha Mel. Ela está preocupada, tem filhas pequenas e não tem com quem deixá-las. Tento acalmá-la e peço intervenção do serviço social. Só amanhã.
Mais um SAMU, mais um alcoolizado. Cambaleava pela avenida e atropelou um ônibus, segundo o PM o ônibus ficou muito amassado. Está agitado, gritando. Mas responde bem e obedece à orientação de fazer silêncio. Medicado, raios-X, observação. Pede para ir ao banheiro, não consegue andar. Está muito bêbado. O Ad coloca uma comadre. Ele desce da maca, coloca a comadre no chão, desce as calças e fica de cócoras. Antes que pudéssemos dizer qualquer coisa ele começa a defecar... Esqueceu de tirar a cueca. Tira a cueca, joga dentro da comadre, veste as calças e volta pra maca. Não sei se dou risada ou choro, mas o cheiro é de matar.
A partir daí foi um sossego, só. Problemas administrativos, bate-papo no posto. Café da N, delícia. Uma limpeza aqui, outra ali. PLANTÃO TRANQUILO...
Seis e meia da manhã. O Ed chama. O paciente da emergência que está entubado parou. Massagem, medicamentos e... O terceiro óbito de meu ano. Preparamos o corpo, papelada, encaminhamos para o necrotério. Deveria ser proibido morrer as 06:30h. Fim de plantão. O pessoal do dia começa a dar o ar da graça. Perfumados, banhados e bem dispostos...
“Foi um bom plantão”, converso com Rn
“Foi tranqüilo, no próximo você estará aqui.”
“Não! Estou de folga”
“De novo?”
Dou risada. “Até sábado”
“Até sábado”
Gostei, até que fim um plantão mais calmo tirando o cheiro!!!!!!!!!!!!!!rsrsr
ResponderExcluire que cheiro, Cláudia. Que cheiro
ResponderExcluirNunca vi usarem uma comadre no chão! Não dá tempo de chegar ao banheiro, use a comadre rs!
ResponderExcluirTo viciada, neste blog
ResponderExcluirQue maluco, cagar na cueca de cócoras kkkkkkkkkk
ResponderExcluirDepois dizem que vida de enfermeiro é baba, Affh!!! Só Deus para saber e nos socorrer.Só para registrar, também odeio esse diagnóstico Febre a esclarecer ou para ficar mais chique, Febre de origem desconhecida, mais uma vez...Deus tenha piedade de nós.
ResponderExcluir