terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Décimo dia – O Último plantão do mês

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Vou começar este post fazendo uma correção: eu dei o adjetivo torrencial para a chuva que peguei a caminho do hospital no plantão passado, me precipitei e agora fiquei sem palavras para descrever a chuva que me castigou hoje. Uma coisa assustadora, não se enxergava nada e de repente começou a cair pedras de gelo, que vou dizer uma coisa; dói, pra caramba!!! Foi muita água, muito gelo e muito medo até chegar ao hospital oque aconteceu bem cedo hoje por volta das quatro da tarde. Precisava conversar com a Rg e com a Gr, diretora de enfermagem e gerente do Pronto Socorro respectivamente. Tinha um relatório de quatro páginas, redigido em razão do último plantão e queria entregar em mãos para a Rg. Entrego uma cópia para a Gr em respeito a sua posição de forma que não seja pega de surpresa quando o papel “começar a rodar”.

Banho tomado, a água poderia estar mais quente hoje. Meu corpo dói por inteiro. Chego à sala da Rg, cumprimentos. beijos, encontro a Pl, enfermeira que é a Ab do outro plantão noturno, onde trabalhei por algum tempo, gosto dela. Conversamos um pouco, peço para a Vn imprimir o relatório, entrego uma cópia para a Gr e outra para a Rg, lemos juntos e, por incrível que pareça a Rg parece gostar de ver os problemas expostos no papel por quem está sentindo na pele. “Até que enfim alguém escreveu uma coisa decente.”

Ficamos conversando até as 18h00m quando vou para o PS  passo pela porta vai-e-vem e encontro um cenário animador. Poucos pacientes, macas vazias, se fosse sempre assim… “Tivemos 15 altas” comemora a Ld, enfermeira da tarde. “Trabalhei muito aqui, hoje” completa o Rf, também enfermeiro, enquanto passa uma sonda nasogástrica em uma jovem de 17 anos. “Intoxicação exógena”, penso.

Vamos à escala: parece tranquilo se todos vierem teremos quatro no corredor e 16 pacientes. Não vou mudar, se for assim hoje eles terão um dia de paz. Lembro-me que a P não quer ficar na observação masculina, vou atender ao pedido ela merece, sou ajudado pelo fato da Fn, estar de licença médica de forma que preciso de alguém para cobrir a emergência. Mexe aqui, muda ali, resolvida a escala vamos receber o plantão…

Tudo tranquilo, um cotovelo quebrado, pressão alta, AVC, perna quebrada, engasgo com espinha de peixe… Chegamos à garota de 17 anos, úlcera péptica. (bem feito, José, quem mandou fazer julgamento precipitado) Ela reclama da sonda quer que retire, peço para aguardar que voltarei para avaliar.

Na emergência temos uma senhora com AVC e outra com um sangramento nasal, “Fez tamponamento agora” informa o Jq. “Cauterizou?”, pergunto. “Não, não foi necessário”. Balanço a cabeça como a prever o retorno do sangramento na madrugada.

Minha equipe vai chegando, enquanto eu preparo minha bandeja. Ah, ainda não contei de minha bandeja então vou aproveitar os comentários de hoje para explicar.

Enquanto eu preparava a bandeja uma auxiliar da tarde comentou “Enfermeiro, todo dia você monta a bandeja, né?” “Sim.”Respondi. “Ele monta e ai de quem mexer e não repor, do jeito que estava, escuta até de manhã”, retrucou outra. “Não é bem assim, apenas gosto que reponham o que usaram” “Sua bandeja é famosa”, disse a primeira. Dei um sorriso e voltei a montar a bandeja. É parte de minha rotina, ter uma bandeja para punção venosa e coleta de exames pronta para o uso e fico realmente contrariado quando a encontro remexida ou faltando algum item. Inclusive bolinhas de algodão. Os auxiliares que trabalham comigo já sabem e alguns usam e repõem. Outros nem chegam perto dela.

Começa o plantão, ouço palavrões no corredor. Vou até lá e vejo um homem sair empurrando uma cadeira de rodas enquanto distribui “elogios”. Pergunto a Ns o que aconteceu e ela me explica que ele não quis deixar a esposa sozinha enquanto ia fazer a ficha. “Saiu xingando e levou-a lá pra frente”. Decido ir atrás. Ficha, passo-a na frente e durante a conversa descubro o motivo do zelo. Eles brigaram e ela passou mal. Ele a “empurrou’. Isto acontece com freqüência, aí ele não quer se afastar com medo do que ela possa falar, Mas ela não quer falar nada. Não tem nada clínico. Um diazepan e pode voltar pra casa, até o próximo “empurrão”. Volto para o corredor.

Vou avaliar a menina da sonda. Peço para a N repetir a lavagem. “Se sair limpo, vamos falar com o cirurgião e retirar a sonda”. Ledo engano, a paciente vomita, sangue. Vai continuar com a sonda. Ela ainda vomitará várias vezes até amanhã, quando fará a endoscopia.

O endoscopista foi chamado com urgência para retirar a espinha de peixe do esôfago de uma paciente. O cara chegou, retirou a espinha e saiu. Perguntado, pelo Rf, se não poderia fazer a endoscopia da menina de 17 anos “Não, só atendo urgências” Nesta hora dá vontade de dizer umas verdades… Mas até o final do plantão eu vou “me vingar”.

Vou jantar com a P. Comemos tranquilamente, como deveria ser todos os dias. Na volta o café da N estará pronto. Comentamos que não tomamos café no plantão passado.

Plantão calmo, An e eu, resolvemos fazer uma reunião com a equipe, Conversamos sobre os problemas de sempre. Nossa equipe é ótima. Durante a reunião damos algumas orientações e voltamos ao plantão.

Bate papo no posto e minha mania de organização volta ao assunto. O Ed, diz que a mãe dele mandou me avisar que eu estou certo mesmo. A Ns brinca que minha casa deve ser toda arrumadinha. (nem tanto). E por aí foi, brincadeiras, histórias de minhas manias (Como eles guardam tudo…)

Mais uma mulher nervosa no corredor, brigou com o filho. Mais um diazepan e tchau.

Chega um senhor 80 anos, câncer de próstata, está com a sonda vesical obstruída. A P prepara o material e eu vou trocar. Foi tranquilo, espera mais trabalho. Fazemos uma irrigação e pronto, ele vai pra casa. Não há mais o que fazer aqui.

A P, faz minha dipirona.  Estou com dores no braço. A chuva de gelo tem suas consequências

Uma moça na cadeira de rodas, faz uso de haldol e amplictil, parece impregnada. Encaminho ao clínico que concorda comigo e manda para o psiquiatra.

A mulher da espinha de peixe me procura, precisa do relatório da endoscopia. “O médico não te entregou?”, pergunto. “Não”. Peço para ligar para ele. “Deixei em cima da mesa, pegue pra mim”. “Desculpe, a sala está trancada” “Peça a chave” “Não posso. Só posso fazer isto em caso de emergência. Você terá que vir ao hospital.”  Ele veio, uma hora depois, tentou conversar, mas não dei atenção. VINGANÇA.

Converso com a CA, cirurgiã. Amenidades. Falamos sobre a paciente do sangramento nasal. “Ela está tranquila”. Diz CA. “Acho que vai sangrar, estes tamponamentos não costumam dar certo”, respondo. “Dão sim”. “Vai sangrar” “Quer apostar?” “Um jantar” “Feito”. Ganhei um jantar. As três da manhã recomeçou o sangramento.

Chega o SAMU, a Cm enfermeira. Aquela que me ajudou na parada alguns plantões atrás, traz uma senhora com hiperglicemia. Avaliada, descobrimos que a hiperglicemia é o menor dos problemas. Ela tem uma prótese no canal biliar que está obstruída. Afunda rápido. Contatamos o hospital onde ela colocou a prótese há 15 dias e transferimos. Rápido.

Dou um auxílio ao “dever de casa” da Ns, acadêmica de enfermagem. Penso que alguns professores se esquecem como é um hospital.

Duas crianças com braços quebrados, às 2:00 da manhã. Transferência para hospital infantil. A Sc vai com uma cara de “feliz” que só vendo.

Nada de mais grave acontece no restante do plantão…

Resolvo sair mais cedo (tenho direito a duas saídas no mês e hoje é o último plantão deste mês).

Me troco, despeço-me dos auxiliares.

- Cara folgado, brinca o Ed vai ficar sete dias em casa

- Tenho direito à folga, retruco

- Haja folga, completa a Mc, vai com Deus e cuidado.( Ela se refere a moto).

- Beijos, obrigado

Até dia primeiro, DE MARÇO

coMENTE

4 comentários:

  1. A casa deve ser uma bagunça como a bandeja de punção rs!

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  2. Puxa, até que enfim não tive vontade de chora lendo o blog. Gostei do jeito que vc agiu com o endoscopista 10

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  3. Vc não pode folgar!!! Como vamos ficar sem o que ler até o dia 01/03?

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  4. Olha, estava pensando… você é praticamente um dos pacientes. Acho que enfermeiro usa muita droga… já pensou nisso??? Eu também estou sempre tomando alguma coisa, acho que meus colegas também… que horror!!! Ah, vou contar pra NS o quanto você é organizado… Rsrs…

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