domingo, 20 de fevereiro de 2011

Nono dia: De volta à rotina

lotadao

Com um calor infernal (O inferno é quente?), chego ao hospital por volta das 18:45 e vou direto para o chuveiro, banho frio e coloco o uniforme privativo com o corpo ainda úmido na esperança de prolongar o efeito refrescante do banho. Como estava de folga no último, não faço idéia de como está o Pronto Socorro. Folga de plantonista é bom, porque você fica três dias fora e em três dias acontece muita coisa em um hospital. Mais disposto vou para o PS e a cara de satisfação que o Ro, enfermeiro do dia, faz ao me ver logo justificada pela cena que se descortina atrás da porta vai-e-vem. Uma coisa de louco, macas por todos os lados e em todos os cantos. Cumprimento-o com um aperto de mão, trocamos algumas palavras e ele deixa clara a sua intenção de “sumir deste lugar”, “Cara tá f***, a gente  não dá conta”. Olho em volta e os olhos de enfermeiro identificam pelo menos três pacientes ainda esperando os primeiros cuidados. Decido abstrair a cena e cuidar de fazer a escala dos auxiliares.

Está difícil, poucos funcionários. Sábado é um plantão complicado, muitas internações e remoções. Não sei como faremos hoje. Meu parceiro de plantão. Faço a escala e mal fixo-a no balcão e começam, as “boas” notícias: “ A Db não vem. Está de atestado”. “O Vn também não vem. Está de folga”, “Acho que que a Fn também não vem. Ela não estava bem no último plantão”

Paro um pouco olho pra escala e tenho vontade de chorar. A se confirmarem as faltas, ficaremos com um no corredor, um na medicação, uma na semi intensiva, um na soroterapia e um monte de reclamações. Faltas confirmadas. Caos mais do que instalado. Recebo o plantão. A cada paciente minha cabeça gira a pensar como fazer para dar conta disto tudo. O Ed, assume a medicação no corredor. Ele tem aquele humor sarcástico que faz as coisas parecerem menos ruins. “Vou fazer tudo o que der até as 7 horas e não fico um, minuto a mais”  Temos 23 pacientes no corredor e o plantão está apenas começando.

Vou para a emergência. Recebi com dois pacientes e ambos precisam de acesso venoso. “Não sei como alguém pode estar na emergência sem acesso venoso”. Puncionados os acessos saio para o corredor e deixo P e Ns se desdobram para trocar um paciente de mais ou menos 150 quilos. Não é maldade. Aqueles pacientes que eu visualizei as dezoito horas aguardando o atendimento, ainda estão na mesma situação e o Ed não dará conta de tudo.

Primeiro paciente, rapaz de 30 anos, pouco mais ou pouco menos. Jogava futebol e rompeu o tendão de Aquiles. Necessita de cirurgia. Conversa comigo, pergunta a que horas será operado. “A que horas, ou quando? O Senhor não será operado hoje ou amanhã. Somente a partir de segunda-feira.” Ele ri, não acredita no que eu estou falando e fica mais surpreso ainda ao saber que deverá esperar no PS, na maca até a transferência para realizar a cirurgia. “Assim que eu conseguir uma maca”.Completo.

Enquanto eu falava, puncionei a veia e fiz a medicação. Deixo-o com a esposa e vou cuidar do próximo. Homem, 40 anos, etilista. Caiu, bateu a cabeça. Aguarda desde as três e meia da tarde. Está lúcido. Nervoso pela demora. Explico a situação. Medico e chamo o médico para vê-lo novamente. (Algo não está bem).

Os bombeiros entram com outro, Bebeu, caiu e não levantou. Avaliado, medicado, melhorado, fugiu. Nem vi por onde ele saiu.

Uma senhora de 73 anos com pneumonia aguarda cuidados iniciais. Olho com preocupação. Ela está na cadeira de rodas e “internada”. Imagine 73 anos e a noite toda em uma cadeira. “Preciso resolver isto, não sei como, mas preciso.” Penso.

Os familiares de outra paciente com fratura no fêmur começa a pressionar pela internação no quarto que o “enfermeiro gordinho” disse que teria. Quando recebe minha negativa o filho dispara: “É porque não é tua mãe, senão você daria um jeito” Tenho vontade de responder. Mas para que tumultuar o caos? A Ab, aparece, ela adora resolver estas coisas, como ela está na clínica arruma um lugar e transfere a paciente para lá. Problema adiado.

Chega a S, auxiliar do centro cirúrgico vai trabalhar na semi com a Mc, beleza. O Ln, vem me ajudar. Este menino está ficando bom e se mostrando um excelente companheiro de trabalho.

Um paciente que não pára na maca, cede “voluntariamente” a maca para a senhora de 73 anos. Limpo a maca, instalo a anciã e medico. O segredo é perguntar alto e no meio do corredor: “Como o senhor está caminhando bastante e é jovem posso usar a maca para aquela senhora?” Imagine sessenta olhos em você. Vai dizer não?

Com a transferência da senhora da fratura de fêmur, outra maca vazia e pude colocar uma mulher que estava com falta de ar e na cadeira desde a tarde. O filho ficou agradecido.

P, e Ns, transferem o paciente obeso para a semi intensiva. Com apenas um na emergência, podem ajudar no corredor.

Uma paciente chora de dor. Preparo-me pára medicar e a P toma a frente. “Pode deixar eu medico”. Resolvido. (Queria só mais umas duas auxiliares assim).

O Paciente do rompimento de tendão me chama. Ele vai embora. Não vai ficar vendo tanto sofrimento. Tento dissuadi-lo mas o entendo. Hoje está difícil. Paro por um momento e olho em volta. Tento pensar em qualquer teoria de administração para evitar um caos, maior ainda, e decido que o melhor é ir fazendo tudo que dá e apagando os incêndios na medida em que surgirem. Algumas mexidas na escala e parece que tocaremos o plantão.

Peço para a P me medicar. Estou com dor no joelho.; Desta vez ela é rápida. Prepara e me chama. Enquanto ela punciona minha veia o Ed, vem por trás e a empurra, brincando, mas o suficiente para que seja furado mais uma vez. “V****”, é o que ele ouve.

O paciente da queda faz uma tomografia. Afundamento de crânio. Precisa de neurocirurgião. Foi transferido.

Conseguimos por a casa em ordem, e passamos a trabalhar com mais calma. Hoje não tem café da NS nem bate papo no posto. Meia noite, chega um senhor de 71 anos. Não evacua há quinze dias. A barriga parece que vai estourar. Exames, medicação e outra internação.

No corredor há um princípio de tumulto. Uma paciente com dor abdominal e em jejum, está revoltada com a Jn porque ela não lhe dá água. Explico que auxiliar está certa e ainda tenho que ouvir “Tenho AIDS mas sou gente eu sei de meus direitos”. Mas uma vez opto pela conciliação, falo mais baixo que ela até que ela pare de gritar. “Este plantão não vai me estressar”. Penso.

Enquanto a P, cuidava deste senhor o paciente que restou na emergência parou. Massagem, medicação, nada. Óbito. Acho que é o terceiro do meu ano (ou quarto). Ligo para a família. É horrível você ter que falar para as pessoas comparecerem ao hospital com os documentos do pacientes. Elas fazem perguntas que já sabem as respostas e você não pode responder. “Ele faleceu?” (Por favor, venha até o hospital e aqui nós conversamos”. “Mas ele morreu?” “Estou esperando a senhora”.

A família chegou. Enquanto o RB, clínico, e eu dávamos a notícia, entra uma menina linda. Dezesseis anos, bebeu e passou mal. “Foi só umas cinco latinhas” diz um dos adolescentes que a acompanham. Teste de glicose 45 mg/dl. Acesso venoso, medicação e show a parte. Medo de ter os pais chamados ao hospital. “Esta também vai fugir assim que melhorar”. Dito e feito

A Ortopedia não pára. Criança que caiu da moto com o pai, fratura. Gesso, transferência o que significa: mais um problema. Muitas crianças, hoje 04 ou cinco. A Sc, não parou. Toda hora tinha uma remoção e foi assim até as duas da manhã.

Duas e meia. Chegam de uma só vez três rapazes. Queda de moto. Escoriações fraturas e… mais dois para aguardar cirurgia

Hoje meu plantão é mais curto. Vou sair mais cedo.

Fim de plantão, estou um caco. Ainda tenho pelo menos duas horas de prova…

Me despeço de todos.

“Tchau família” (eu os chamo assim).

“Tchau chefe, boa prova”

“Foi um excelente plantão. Até amanhã”

 

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6 comentários:

  1. Senti falta do blog, estes dias. Oque aconteceu? Não estou cobrando é que virou um tipo de vício.
    Luana

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  2. Putz, que que é isso. Se eu me formar e for assim não sei se aqguento

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  3. Luana, pode cobrar sim! Na verdade só publico após os plantões e, como eu prometi na última folga, eu folguei de verdade rsrs. Então nos dias de folga não tem post novo. Obrigado e continue nos visitando

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  4. Nossa estou cansada só de ler, mas como sempre ótimo vc está de parabéns.

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  5. Que plantão hein! Merece outra folguinha...

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  6. Gostei da foto, cenário de guerra!

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